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Você não é culpa minha

Tudo aquilo que nosso amor não foi.

Esses dias conversei com uma velha amiga sobre a vida, sobre a forma que alguns desencontros se encontraram depois um tempo, e sobre o som da colisão de alguns mundos diferentes.
Como falar sobre tudo isso e não falar sobre você?
Ah, você…
Depois de tanto conversar com ela – sem nenhum desprezo ou intenção de depreciação – sobre a sua nova paquera e a forma que você parece genuinamente feliz ao lado dela, minha amiga fez o que gosto de chamar de o-comentário-mais-infeliz-que-já-ouvi, quase como um discurso que muitas vezes fora verbalizado por alguém, e acabou por se tornar uma verdade (não dela, pelo menos, mas sua):

“ sabe, Paula, talvez as coisas fossem diferentes se você…”
Não lembro de absolutamente uma palavra que ela possa ter mencionado após. Como poderia?

Se eu? Como assim?
Ela não tinha a obrigação de saber todos os segundos daquilo que vivi na pele quando estava ao seu lado. Minha amiga sabia apenas o pouco que era demonstrado naquelas declarações que você fazia bem alto no meio da rua rodeada de pessoas, mas nem ela – e nem ninguém – assistiam a outra face da verdade quando essa estava somente entre nós dois. Ninguém acompanhou os abusos psicológicos, as vezes que você me fez acreditar fortemente na ideia de que eu e somente eu te causava todas as doenças mentais e crises que você nunca teve, ou então que _eu_ era o motivo que praticamente te obrigou a dormir com outras pessoas depois que saía da minha casa após uma briga resultante de algum questionamento “irreal”, como você dizia, sobre aquela mensagem com conteúdo, que nem chegava a ser considerado suspeito, porque era tão óbvio que seria imoral usar esse termo, mas condenado.

As pessoas não sabem nem um terço daquilo de tudo que nós fomos, porque você não transparecia para os outros o que acontecia de verdade, porque fazer isso seria reconhecer em alto e claro tom que não éramos perfeitos (e nem feitos) um para o outro. Seria gritar ao mundo que nós dois fomos bola fora desde o primeiro minuto do primeiro tempo, e não a imagem de casal perfeito que era rotineiramente pelos outros invejado.

E no início foi doloroso entender que eu não sou – nunca fui, e nem pretendo ser – babá de ninguém. Eu não me importo de hoje ser comparada negativamente a outra mulher que “conseguiu te salvar de você mesmo”, mas me importo que essa função seja atribuída a ela pelo simples fato de ser mulher, e não a você por não querer, e nem ser socialmente cobrado a assumir as consequências dos seus próprios atos.

Enquanto minha amiga tagarelava sobre a lista de coisas que eu deveria ter feito para permanecer no “amor de filme” que ela jurava conhecer do início ao fim por ter assistido durante alguns anos, e insistir no discurso de que eu deveria me redimir por ter dado um basta em tudo aquilo que você me ajudou a destruir, eu estava ali vivendo os bastidores repetidas vezes nas minhas memórias e nas cicatrizes que até hoje você deixou, sem um pingo de remorso ou incerteza de qualquer outra coisa que não se resumisse em:
você não é culpa minha.

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