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Uma noite no apê

O que apaga os olhares brilhantes?

Eu vi o cansaço nos olhos dela. Ela vagava pelo apartamento com o mesmo short rosado e a mesma camiseta de algodão cinza há dias. As roupas eram folgadas e espaçosas, e estavam amarrotadas. As olheiras fundas acusavam as noites em claro.

Nós dividíamos um apartamento pequeno há cerca de um mês. Eu a conhecia pouco, mas notava o claro contraste no semblante.

Lembro bem de uma Quinta-feira à noite em que abri a porta atrapalhada, com sacolas de mercado, e ela estava cozinhando. Seus pés, calçados de longas e chamativas meias azuis de bolinhas amarelas, escorregavam no chão branco da cozinha ao som de um jazz bem tocado. E, não, ela não sabia dançar nem um pouco. Ela escutou o barulho do meu chaveiro na porta e se virou, sorrindo. Me cumprimentou e perguntou se eu estava com fome. Afundou o dedo indicador numa panela com molho vermelho, provou, fez uma careta engraçada, e deslizou sobre suas meias até o pote de sal. Ela era feliz… ela era, nitidamente, feliz. Não falo da felicidade gritante-espalhafatosa-vestida-de-neon-com-chapéu-de-penas que as pessoas fingem sentir. Falo de uma felicidade leve, doce, discreta… quase contagiante.

Curioso como, repentinamente, a vida nos toma coisas tão nossas. Nos toma nossa essência, nosso brilho, nossos sorrisos, nossos sonhos, nossa trilha sonora alegre como um bom jazz. Mas hoje, após várias horas maçantes assistindo uma aula qualquer, eu vou abrir a porta do apartamento, olhar dentro daqueles olhos cansados, contar sobre as lembranças de uma Quinta-feira, recomendar um tempero novo para o molho vermelho e emprestar um pouco de brilho àqueles olhos.


Por: Ana Gabrial Nunes

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