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Só tinha de ser com você

É, você que é feito de azul, me deixa morar nesse azul, me deixa encontrar minha paz.

Os domingos sempre foram dias preguiçosos. Aquele, porém, não era um deles. Estávamos em fim de mudança. Era o nosso primeiro domingo na nova casa. Dividimos as tarefas pro dia que estava apenas começando. Ela tinha a missão de terminar a arte que começou na sala de casa. Eu cuidaria do café da manhã.

Nos cruzamos enquanto eu ia para a cozinha e ela saia do quarto. Ela com aquele sorriso inconfundível. Eu com aquela cara de quem não dormiu — ou ainda não acordou. Ela com aquele óculos de armação arredondada. Eu com aquela velha camisa do Corinthians. Ela com as tatuagens espalhadas pelo corpo. Eu com a pinta no queixo já coberta pela barba. Ela com uma malícia no olhar de quem queria voltar para o quarto. Eu com a vontade de ir junto com ela.

Eu levantei e programei a velha vitrola que havíamos comprado naquela lojinha de antiguidades do centro da cidade. Um vinil de Elis Regina sempre muito bem acompanhada por Tom Jobim é que seria o responsável por dar o ritmo na manhã.

Botei os pães de queijo no forno. Comecei a preparar o café. Eu nunca fui de dançar, até por ter dois pés esquerdos, mas alguma coisa na voz de Elis me fazia não querer ficar parado. Resolvi, então, ir atrás da minha melhor companhia.

Assim que passei pela porta da cozinha, ainda no corredor, eu podia vê-la ali, trabalhando em sua arte. Ela usava um short jeans e só. Domingos também trazem uma gostosa liberdade, pelo visto. O cabelo estava preso em um coque simples. Ela, assim como eu, parecia não resistir a Elis e, mesmo que de forma tímida, tinha o seu leve gingado. Um pra cá. Um pra lá. Dois pra cá. Dois pra lá.

A vitrola tocava “Só tinha de ser com você”.

Eu caminhava lentamente em direção a ela, para que não fosse ouvido. Peguei a câmera, que agora se encontrava numa prateleira. A preparei. Um, dois, três clicks. No primeiro plano, a artista. Sim, ela era uma artista. Eu descobri isso quando ela acabou por pintar o sete depois de entrar na minha vida. Eu reconheci isso depois que os dias passaram a ganhar cor por culpa dela. No segundo plano, agora também começando a ganhar cor, estava minha mãe Iemanjá.

Larguei a câmera em cima da estantezinha que era ocupada por livros e vinis.

Passei minhas mãos, suavemente, por sua cintura. Um leve susto e, então, um alívio. Eu a abracei e aproveitei para dar um beijo em seu pescoço e também para entrar no seu gingado. Apesar do cheiro de tinta, ela ainda tinha um perfume doce.

Eu a peguei pela mão e a girei, para que ficasse de frente pra mim. Os olhos castanhos, tão concentrados na pintura, agora encontravam com os meus. Um sorriso, aos poucos, foi tomando conta de seu rosto.

Um beijo. Minha barba agora também estava pintada. Ela riu de forma gostosa ao ver o quanto estava me sujando de tinta.

“É, você que é feito de azul, me deixa morar nesse azul, me deixa encontrar minha paz”. A voz de Elis seguia na vitrola.

Eu e ela estávamos, finalmente, em casa. Eu e ela estávamos, finalmente, em paz.


Por: Nickolas Ranullo

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