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Sentido

O que você sente, te faz sentido?

Sentido. Na minha cabeça — e também no meu coração — eu sempre busquei por aquilo que me fizesse sentido.

Sempre me fez sentido, por exemplo, os banhos de luz acesa. Eu nunca fui de cantar enquanto estou no chuveiro. Uso aquele espaço com controle. Existe um processo. Sinto a água quente — sempre quente. Cair primeiro sobre meus ombros, descer pelas costas. Um passo pra trás. Cabelos, nuca, rosto, peito. Por vezes, estralo as costas. Sinto o corpo relaxar. Sinto a água passar pela barba, através dos pelos do meu peito, barriga, virilha, coxas, panturrilhas, pés. Sabão, shampoo, tudo isso vem dentro de um processo que sigo basicamente desde sempre. Não tenho pressa, mas também nunca demorei mais do que o necessário. Só quando algumas vontades também se fazem mais do que necessárias de serem resolvidas. Eu preciso que as coisas tenham sentido, por fim.

Sentido. Me incomoda, quando ele falta. É como se as coisas não se encaixassem como se deve. É como se ficasse algo a ser dito, feito, pensado, analisado.

Não me fez sentido quando ela se aproximou de mim da maneira que se aproximou. Ela minou defesas, atravessou muros, derrubou paredes e… Chegou. Chegou perto o suficiente para que, quando eu olhasse dentro dos olhos claros dela, eu visse o meu reflexo. O reflexo de um homem que sempre se defendeu tanto que, agora, perante alguém que não levantava escudos, não parecia construir uma muralha a sua volta, não sabia agir. Não sabia o que dizer, o que fazer, o que pensar, o que analisar, então… Contemplei.

Contemplei a beleza do seu sorriso. Contemplei o brilho dos olhos que ficavam tão miúdos quando ela ria. Contemplei a forma que sua mão buscava pelo contato comigo. Contemplei o desenho de sua boca ao me contar suas histórias, tão cheias de inocência e tão carregadas de carinho e fascínio. Contemplei o sabor de seus lábios junto aos meus. Contemplei a suavidade de sua pele, conforme eu a acariciava. Contemplei o som da sua voz, carregando uma formalidade e um pé no chão, mas que também queria tanto voar. Queria tanto que voou. De lá, pra cá. Pra cá. Aqui. Comigo. Contemplei a forma que as luzes do final de tarde brincavam em seu rosto. Eu precisava mais. Contemplei sua liberdade e sua vontade em também querer mais de mim.

Sentido. Sentido é, também, uma direção. Um caminho. Por vezes, caminhamos em direção ao desconhecido. Por vezes deixamos de percorrer caminhos que nos levariam a tantos novos lugares apenas por nos acomodarmos ao que já temos, ao que já conhecemos, ao que já somos. Eu conhecia os caminhos que estávamos seguindo naquele começo de noite.

O destino, porém… O destino pode ser final, pode ser começo, pode ser surpreendente.

A vista da cidade que nunca dorme. A vista da cidade que parecia estar aos nossos pés quando ela me serviu uma taça de vinho, depois de tantos cafés. A vista de uma cidade que talvez invejasse caminhos tão distantes mas que se encontravam pela primeira vez ali, mesmo com um gosto tão grande de reencontro. É… O destino brinca com as pessoas.

Sentido. Sentidos. O ser humano tem cinco sentidos.

Tato. A pele dela junto a minha. A forma que meus pelos roçavam em sua pele lisa.

Olfato. O perfume dela, doce, misturava-se com o do café, puro. Essência.

Paladar. O gosto da pele dela assim que minha língua passou pelo seu pescoço e foi até a orelha antes de uma mordida. Um gosto de “quero mais”.

Audição. Eu a ouvi rir baixinho quando minha barba arranhou seu pescoço, antes da minha mordida em sua orelha. Um suspiro. Um gemido. Um pedido. “Vem pro chuveiro comigo?”.

Visão. Eu me afastei um pouco, ainda com minhas mãos em sua cintura. Já estávamos à caminho da cama. Ela sorria. Encarei seus olhos. Existia ali mais do que uma fagulha. Era uma chama. Era um chamado. Eu ri baixinho antes de balançar a cabeça positivamente. Tem convite que não se nega. Tem vontade que não se nega. Tem chama que não se apaga.

Sentido. Eu nunca vi sentido em banhos à meia luz e com música de fundo.

Sentido. Eu senti toda a diferença de um banho à meia luz e com música de fundo assim que entramos juntos no chuveiro.

Eu sentia a água, quente, cair sobre nós, enquanto os beijos aconteciam. Enquanto procurávamos um pelo outro. Enquanto nossas vontades cresciam. Enquanto nossos desejos se tornavam mais e mais claros.

Eu senti o vidro gelado do box nas minhas costas quando ela me deu um leve empurrão. Seus beijos passaram pela minha boca. Ela se divertia com o prazer sem limites que me causava enquanto éramos limitados por um pequeno espaço físico. Físico. Suas unhas deixaram marcas em meu peito, em minha barriga.

Quente. A sua boca era quente. Eu fechei os olhos. Ouvia a água cair no chão. Ouvia a água bater nela, agachada à minha frente. Eu sentia a pele do seu rosto molhada, enquanto passava uma das minhas mão por ele, até chegar aos cabelos loiros e também molhados.

Eu sorri. Eu não gosto de perder o controle. Minhas mãos passaram em seus ombros e então eu a levantei devagar. Seus olhos vieram de encontro com os meus. As peles voltaram a se encontrar.

As curvas. Éramos peças de um quebra-cabeça que, de longe, talvez fosse difícil de se encaixar, mas de perto…

Trocamos as posições, rapidamente. Ela agora estava de costas pra mim. Meus beijos passaram pela linha molhada da sua coluna, eu a inclinei um pouco. Tudo pra ficar perto. Mais perto. Mais perto. Encaixe. Um gemido. Sorrisos. Idas, vindas.

Agora eu sentia a água descer pelas minhas costas. Os movimentos ganhavam velocidade, aos poucos. Mesmo apenas à meia luz, eu notei os vidros se embaçando. Tem vontade que prefere mistério. Será que desejo tem silhueta?

Força. Fomos em direção à parede. Ela agora voltou a ficar de frente pra mim. Um pequeno pulo. Nossa diferença de altura era perfeita. Eu a segurei pelas pernas, que me envolviam. O encaixe voltava a acontecer. Força. É tudo uma questão de jeito. É tudo uma questão do que nos tira o equilíbrio.

Sentido. Eu sentia nossas peles molhadas. Eu sentia as idas e vindas. Eu sentia suas mordidas. Eu ouvia seus gemidos carregados com sorrisos. Eu sentia o gosto da sua pele. Eu senti toda aquela vontade acumulada pedir por mais, mais, mais e… Juntos. Fundo. As pernas dela me apertaram. As coxas, rígidas, pareciam congelar um momento. Nos olhamos. Sorrimos. Saciados? Não… Só havia o desejo por mais. Mais um beijo. Mais um carinho. Mais vontade. Mais desejo. Mais nós.

Sentido. Nem tudo o que faz sentido, nos fará sentir algo.

Sentir, por fim, será mais importante do que fazer sentido.

Sinta mais. Faça sentir mais…. Isso tudo não te faz sentido?


Texto: Nickolas Ranullo

Foto: @mazoleo

Modelo: @eliisariios

 

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