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Pedaladas amorosas

Meu primeiro beijo foi uma fraude.

Gabriela. Esse é o nome da primeira garota que eu beijei, aos 15 anos. Nossas línguas se encontraram do mesmo jeito que dois conhecidos se encontram por acaso no shopping. Ninguém sabe o que fazer direito. É pra trocar ideia? Ou continuar andando? O que fazer?  Gabriela era linda, que sorte! Era morena, de olhos azuis. Carregava seus óculos na ponta do nariz e o cabelo preto na altura do ombro. Ela era perfeita. Quer dizer, quase. Gabriela só tinha um defeito: ela não existia.

Sim, meu primeiro beijo foi uma farsa, embuste. Bufonaria! Minha Gabriela existiu do mesmo jeito que a Gabriela de Jorge Amado: apenas na imaginação, pois Gabriela não foi a primeira garota que beijei. Foi a primeira garota que eu disse que beijei. Sou culpado, mas agi de boa fé. Minhas pedaladas amorosas não são crimes, são? Só fiz o que fiz para evitar constrangimentos e vergonhas que surgem na cabeça de um garoto de 15 anos ainda bevê.
Ok, eu confesso, senhor policial. Tudo começou no campo de futebol do Esporte Clube Pinheiro. Matando tempo antes do treino começar, o capitão do time —ou  traíra, como eu viria a chamar esse vil ser humano nas semanas seguintes — perguntou:

“E aí, cê já beijou ou vai dizer que ainda é bevê”?

Silêncio. O campo de transformou em uma biblioteca. Meu mundo congelou, como naquela cena de Peixe Grande. Cerca de quinze meninos, armados aos dentes e bocas com piadas e trocadilhos baratos, olharam para mim. Não, eles não podiam saber a verdade. O que você faria no meu lugar, senhor policial? Contar a verdade? Jamais! Revirei os olhos e dei minha uma risada de deboche. Eles só iriam acreditar na minha resposta se eu fingisse não levar muito a sério. Não estou dizendo que eu merecia o Oscar de melhor atuação. Mas uma indicaçãozinha não seria exagero.

“O que você acha?? Claro que já.”
“Ah é? Qual o nome dela?”

E assim surgiu Gabriela. O nosso primeiro beijo foi em uma festa do prédio, dentro de uma casinha de brinquedo. Eu sei, clichê, mas foi o que deu pra inventar na pressa. Isso pareceu satisfazer o capitão, que seguiu seu interrogatório com os outros jogadores.

Respirei aliviado. A minha mentira tinha sido o suficiente para fazer a pergunta desaparecer dos treinos, mas ela insistia em aparecer em outros lugares. Colégio, aulas de inglês, festas de família, aula de música. Até mesmo o dono da padaria perguntou se eu já tinha alguma ‘namoradinha’. Eu, aos 15 anos, com uma namoradinha? Estapafúrdia! Comecei a comprar pão da padaria dois quarteirões pra cima.

Gabriela passou a ter vários nomes. Marina, Vitória, Maria, Maria Vitória, Julia, Maria Júlia, hã, hã, é, hã……Ana. O que saía da minha boca na hora, se tornava o novo nome de Gabriela.
E como quase toda mulher, Gabriela também gostava de mudar a cor do cabelo. Preto, loiro, ruivo, castanho. Os lugares dos beijos também mudavam. O segundo primeiro beijo foi na festa da Bia e o terceiro, no Shopping Eldorado. Foram tantos primeiros beijos que eu nem lembro de todos. Minha vida virou uma comédia romântica e por sorte, eu era o roteirista. As atrizes e os locações mudavam, mas o final era sempre o mesmo: eu e Gabriela, em um beijo digno cinema. O que? Se é pra inventar uma história, que seja uma com final feliz.

Meu roteiro favorito era o “Amor de Santos.” Nessa versão da história, Gabriela foi um amor de verão que se chamava Sophia. Um encontro na praia, poucas palavras trocadas, um beijo e nada mais. Apenas a saudade e a promessa de que um dia a gente se encontrara de novo, naquela mesma praia, naquele mesmo dia, daqui 20 anos. Romântico, não?

Agora, eu sei o que você está pensando: não era mais fácil contar a mesma história sempre? Com certeza, mas minha cabeça dava um branco e Gabriela virava Fernanda, morena virava loira e São Paulo virava Santos.

Depois de tantas versões, lugares, nomes e primeiros beijos, eu finalmente “traí” Gabriela. Em um cinema da Vila Mariana, assistindo Resident Evil, dei meu primeiro beijo de verdade. Poxa, Gabriela, foi mal, me desculpa. O problema não é você, sou eu. Que existo na vida real, onde você não habita.

Mas não se preocupa, Gabi. Como Bogie diz em uma das melhores histórias de amor do cinema, nós sempre teremos Paris. E Santos, e a festa da Bia, a casinha de brinquedo, o Eldorado e todos os outros milhares de lugares dos nossos milhares de primeiros beijos. E se um dia eu calhar de esquecer como tudo aconteceu entre a gente, tudo bem. É só inventar de novo.


Por: Raphael Valenti

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