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Conselho de vô

O dia que me tornei bailarina.

Em criança, o vô disse que eu tinha que ser bailarina.
Não levei o anúncio tão a sério porque naquela época eu só queria saber de subir no pezinho de carambola que o vô tinha no quintal.
Como é mesmo que ele chamava? Ah, sim. Caramboleira. Nunca consegui falar essa palavra de um fôlego só quando miúda. Era desafio maior da vida chamar o pezinho de carambola pelo nome.
Pois bem. Mas vô teimou que eu tinha que ser bailarina.

Naqueles dias, vô nem sabia, eu tinha tomado por amigo o primo de Consuelo.
Consuelo era a cabra que morava duas casas depois do vô, mas ela não era qualquer cabra, era uma cabra muito distinta, então, pensei, o primo deve ser muito distinto também e foi assim que eu fiquei amiga dele.
E pois. Vô insistia que eu tinha que ser bailarina.
Quando a estação não era de muita seca aparecia um riacho por trás da casa do vô.
E era um riacho muito interessante porque se eu olhasse com cuidado conseguia ver que o lado direito do riacho era onde o sol encontrava com a lua. E eu sempre achei esse namoro escondido dos dois o segredo mais bem guardado do planeta. E era lá que acontecia. Bem atrás da casa do vô.
Pois veja esse tanto de coisa que era minha vida. E vô só dizia que eu tinha que ser bailarina.

Foi quando cresci e saí do quintal do vô que eu entendi essa história de bailarina.
Porque teve um dia, e eu não sei que dia era, mas sei que era fim de tarde porque o céu já tinha alaranjado daquele jeito que a gente não sabe se o dia tá indo ou vindo, e bom, nesse dia fui tomada por desassossego.
Passou um moço do sorriso mais bonito que eu já vira pelas bandas de cá. Sem pedir licença, me pegou pela cintura e me tirou para dançar como o vento fazia com as folhas do quintal do vô nos dias de outono.
Foi então que o fato se deu: olhei nos olhos do moço e vi refletida a menina que nunca sucumbiu à desesperança, pois acreditava que um dia viveria todos os seus sonhos rodopiantes.
Parei de teimar por coisa pequena e foi nesse dia que virei bailarina.
Com conselho de vô a gente não discute.


Por: Letícia A.

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