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A menina de cristal

Ou: de como se é frágil, mesmo sendo fortaleza

Era uma vez uma menina de cristal. Era uma vez, hoje. A menina de cristal em seu castelo blindado contra a luz, o som, o mundo.

A menina andava curiosa, gostaria de sair da redoma, ver o mundo com seus olhos cristalinos, mas era (sempre) advertida pelos pais, preocupados.

Era uma vez uma menina de cristal que não podia sair para o mundo. Porque sentiria demais, em toda sua estrutura de ser frágil.

“Você não pode com tristeza, minha filha”, diziam os pais, consternados. Mas logo se animavam, já que sabiam, e prometiam, que a menina não estava perdendo nada.

“Você não sobreviveria, pequena”, insistiam.

A menina de cristal não podia com tristeza. Nascera com essa condição de ser sensível, de ser tão preciosa.

“Já pensou se sai e logo encontra um mendigo com pés sujos e cabelos duros, com grandes olhos de fome, olhos grandes e bocas esquecidas?”, imaginava a mãe com desespero. “Morreria, minha menina, se quebraria toda.”

Contavam a ela que o mundo nem a aceitaria na condição de ser uma pessoa que brilhava, que transparecia. Seria estranha entre músculos.

“O mundo te apontaria. E gritaria! E, no seu grito, você morreria.”

Assim, ficava imaginando como seria viver em um lugar onde existem tantas, tantas pessoas que seriam diferentes dela, que observariam a menina de cristal com curiosidade. Porém, novamente, descobria que o mundo não saberia lidar com alguém tão fora do padrão.

“Tentariam te explicar, criança. Brigariam para ver quem estaria correto sobre sua condição. De um lado e de outro, traçariam regras, inventariam argumentos, começariam a acreditar em boatos, que, assim, seriam fatos. Talvez iniciassem uma doutrina. Te colocariam no altar, te transformariam em anjo ou diabo. Escreveriam sua história. Humanos brigariam para ver quem saberia sobre sua existência, mesmo que isso fosse uma forma de menti-la, exterminá-la, ignorá-la. Ironicamente, não te enxergariam”, sentenciava o pai.

Ela, insistente na curiosidade, se lembrava de como fora apresentada ao mundo: a Terra é o planeta onde pessoas nascem, escutam, olham, absorvem. Crescem, comem, falam, vomitam, abstraem, gritam. Gritam. Gritam. Mas quase todo mundo não escuta.

Era o que sempre ouvia dizer sobre o que havia lá fora.

Então, era assim? Um mundo de projeção? De projetar a cegos? Projetar-se para ser igual? Não viveria, afinal. “É preciso ser opaco para projetar alguma coisa”, pensava em sua transparência de menina especial.

“No outro dia, surgiria outro caso nos holofotes e, você, de cristal, morreria atropelada por uma multidão que nunca se sacia, que sempre procura, mesmo quando encontra”, explicava a mãe, passando, delicadamente, a mão no lindo rosto da menina.

“O ser humano vive de tragédias. Da tragédia e do extraordinário  – para que possa, dessa maneira, se descobrir comum e se acalmar. Apontam as diferenças alheias, mas é para ser igual. Ser humano é identificar-se, portanto. É desaparecer na massa. Você não se misturaria, criança. Você se cortaria e faria sangrar a multidão”, diziam com paciência.

“Pois, então, não há beleza nesse mundo que possa me salvar?”, refletia, otimista.

“Mas é claro que sim, minha filha. A beleza na Terra não tem igual! Há cantos de pássaros, flores na primavera, cheiro de café e olhar apaixonado. Há música e há dança. E tem chuva na janela, tem banco de praça durante as manhãs de sábado. Tem pai, tem mãe. Tem cheiro de livro novo. E tem saudade. Tem abraço, tem o silêncio de duas pessoas que se entendem. Porém, até com a beleza, você morreria. Vibraria tanto que explodiria de emoção”, suspirava a mãe.

“Você, menina, é muito sensível. Não pode com o mundo, enfim.”

Era uma vez uma menina cristalina. Uma menina que dormia e sonhava com um castelo de proteção. Era uma vez uma menina de cristal que sonhava.

Era uma vez, hoje. Acorda assustada. O despertador toca. Os pais, distantes. O mundo fervendo. A mão no rosto: era de carne e osso. E alma. E estava toda quebrada.


Por: Ana Lis Soares

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