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A chuva e Teresa

O que se faz lembrança quando chove no mundo.

“Era só o que me faltava”, pensou ao sentir o pingo gelado na careca, já se movimentando para alcançar um estabelecimento — ou um toldo, que fosse — para se refugiar. Trêmulo. “Mil pessoas correrão ao seu lado. Dez mil te ultrapassarão à direita”, brincou consigo mesmo, a chuva já apertando, mais rápida que as pernas velhas e cansadas.

Olha a sacola com o pão fresco da tarde. Pão que se esfriaria, murcharia, endureceria. Endurecer é pré-requisito da vida, afinal. A chuva caindo, ele se protegendo debaixo do toldo vermelho de um bar, sozinho, pensando sobre endurecer-se.

— Senhor, o senhor não quer se sentar?, pergunta a garçonete de coque e sorriso simpático.

— Não, minha filha, quero assistir à chuva de pé.

Era garoa, enfim. Chuva de molhar bobo, diria sua mulher, que saudade que tem da mulher. “Não era isso o combinado, Teresa”, pensa tristemente na situação de ser viúvo. Nunca pensara que a esposa forte, lúcida e gorda pudesse ir antes, deixá-lo com a tristeza dos três filhos quase órfãos. “Perder mãe é ganhar pai viúvo”, lamentou aos meninos dia desses.

A chuva fina e o pão do dia nas mãos. Os carros, aflitos, começam a se enfileirar na rua estreita da padaria, do bar, buzinam para tentar abrir caminho. Teresinha é quem buscava o lanche, enquanto ele passava o café forte e preto em casa.

“Estava um trânsito lá fora, querido”, chegava sempre com novidades do mundo. Ria daquela coisa besta que era se lembrar de Teresa suando com uma sacola na mão. O barulho do molho de chaves, a novidade que era quase cotidiana.

Coisa besta conseguir se lembrar disso tão vividamente e quase se esquecer do dia de seu aniversário ou daquela festa de bodas de ouro. Pouco antes de Teresa fazê-lo viúvo. Desde então, mantém sua palavra, olha para o mundo como um homem que deixou a mulher partir antes. “Será que as pessoas percebem que busco Teresa de vez em quando?”, reflete ao alisar a mão sobre a vestimenta. Terno, gravata borboleta e sapato nos trinques — ela não perdoaria se soubesse que seu homem não se lembrasse de manter a elegância. Era costureira, afinal. Vaidosa.

A chuva não promete passar, mas ele já olha longe, aquele vazio que carrega no peito. Tempestade de ser solitário. Vazio de homem feito, de homem refeito, de homem passado.

“Me promete que a humanidade não vai terminar comigo?”, suplicou sua Teresinha, em meio ao surto do fim de vida. O hospital gelado, o cheiro de morte, as mãos da velha ainda quentes nas suas, trêmulas. “Entregue meu caderninho de receita a Suzana”, sentenciou também. Coisa besta se lembrar disso na travessia da vida para a morte. Mas assim era Teresa, o  tesouro dela era aquilo: receitas de doces, bolos, pães, delícias e banquetes. Aquela era sua forma de ser humana, de sobreviver à morte, afinal. Teresa vive quando alguém come e sorri.

Desde aquele dia em que Teresa fechou seus olhinhos, realiza vontades da mulher. E não foi sempre assim? “Teresa, minha bússola”,  dizia sempre. Agora viúvo, tenta manter-se humano, cobra dos filhos que ajam como tal. Adora cobrar humanidade de todos eles: “a mãe é quem pediu!”, reforça com voz sóbria e obediente.

Mas a vontade, a vontade mesmo, era de esquecer-se homem, deixar-se ser tomado por aquele vazio, aquela tristeza. Deixar de comprar o pão da tarde, ver a chuva somente pela poltrona, atrás da janela. “A velha sabia me cuidar”, achou graça da presença dela naquela tarde chuvosa. Teresa molhava a Terra.

Saiu andando, queria sentir-se tocado pela água.

— Senhor, senhor! Não quer esperar a chuva passar? Agora a pouco acaba, alertou a garçonete gentil.

— Nada, minha filha. Deixa que me molho. Sou humano, a Teresa que me pediu.

“E tem café quando chegar em casa”. Sorriu humanamente.


Por: Ana Lis Soares

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